quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Skunk no Coliseu

"A Rua Passos Manuel, em dia de concerto grande, veste-se sempre a seu bel-prazer consoante a realidade/geração/década (riscar o que não interessa) representada pelos senhores/senhoras que surgem nos grandes mupies espalhados pelas redondezas do Coliseu.

Descendo ou subindo a mesma rua, pouco interessa a direcção para este efeito, era impossível não sentir nesta noite o cheiro dos anos 90, tão perto e tão longe, tão facilmente identificáveis no espaço e no tempo. Os responsáveis por tal revivalismo desta vez eram os Skunk Anansie, banda ícone da referida década (foram um fenómeno de popularidade) e, a julgar pela lotação elevada da sala, fica a sensação que estes voláteis 00s não se esqueceram deles. Eles quase quiseram escapar por completo a esta década - acabaram em 2001 - mas agora que mostraram os dentes, com o lançamento da compilação Smashes and Trashes e com a digressão mundial que regressou em Portugal, andam a testar as gentes e, quem sabe, eles próprios. E o público, aquele público que encheu o Coliseu do Porto terá, na sua maioria, saudades dos anos 90 - e os Skunk Anansie não podiam ter nascido noutra década.

Os cenários não são modestos: há estruturas de metal imponentes, um conjunto de luzes não menos grandioso. Mas as coisas não ficam por aí. Há também Skin que entra em palco com adereços que fariam Björk corar de inveja e com aquela energia que é apanágio seu. O resto é rock: uma guitarra a debitar riffs de dimensão considerável, um baixo a dar-lhe sustento, uma bateria que é ponteiro do relógio Skunk Anansie e aquela voz de Skin que, alimentada furiosamente pela rádio, se ama ou se odeia. E os Skunk Anansie não perdem tempo.

Ainda a poeira começava a assentar e já a banda britânica atacava - e a palavra não foi escolhida ao acaso - com "Charlie Big Potato", com a entrada algo drum 'n' bass e o riff "eléctrico" que ficou na cabeça de muita gente. E essa é uma canção que pode muito bem resumir a balança Skunk Anansie que bem gosta de flirtar entre o rock mais compacto e sonoridades mais serenas. Os pontos de contactos com a década passada - e quem sabe, esta - estão à vista de todos: para além do som característico, há uma contínua exploração de temas sensíveis e partilhados como a raiva, a dor, a perda, a violência, a fúria contida, os problemas de identidade e o amor. E isso gera partilha.

A partilha que leva "Charity" a ser celebrada efusivamente e "Weak", mesmo sendo retirada do primeiro disco da banda, Paranoid and Sunburnt, a receber o mesmo tratamento. Skin não deixou de o afirmar: sentiu-se feliz por ver tantas caras novas entre a plateia, saudando a nova geração de fãs dos Skunk Anansie. Para os de sempre, outra mensagem: não envelheceram um dia. Como num encontro de amigos, Skin referiu-se a todos os presentes como "sexy young people". E prosseguiu a parada de hits que justificam à escala o lançamento do best of: "Brazen (Weep)", provavelmente a canção que melhor envelheceu com o tempo, a reclamar atenção especial para Stoosh , de 1996. E por momentos há dezenas - senão centenas - de telemóveis que captam o momento para a posteridade, não vão os Skunk Anansie desaparecer mais nove anos.

"They, they, they, they / Who the hell are they? / You think that your conspiracies / Are the crux of all my theories". Não engana, é "On My Hotel T.V.", o complemento lógico de "Charlie Big Potato", que com esta partilha o mesmo grau de fúria e libertação. E foi este o último momento de grande agitação antes de um encore que trouxe uma canção de sempre e outra de agora: "Hedonism", com riff de guitarra que pertence à memória colectiva, e "Squander", a provar que o passado e o presente dos Skunk Anansie vivem pacificamente com as suas semelhanças.

Mas a noite não acabava por ali pois havia ainda um segundo encore e, claro está, a obrigatória "Secretly", a deixar no ar a sensação de dever cumprido na sequência de uma ausência prolongada. Em 2009, estes Skunk Anansie continuam iguais a si mesmos, e dizem que sim ao presente, na esperança que esta década e a próxima ainda precisem deles."


in Blitz


E assim foi. Uma noite nostálgica, lembrando momentos lindos, passados, mas com grande impacto no futuro. A Música faz o momento, o momento somos nós.


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