sábado, 9 de maio de 2009

6 - Suspira o Vento por ela...

... como rumorejam as comadres? Pensa pedir sua mão em casamento? Casar com o Vento não é má ideia, se bem que a Manhã prefira um milionário. O Vento a ajudaria a apagar as estrelas, a acender o Sol, a secar o orvalho e a abrir a flor denominada Onze Horas que a Manhã, só de ranheta, para contrariar, abre todos os dias entre as nove e meia e as dez. Se casasse com o Vento sairia com o marido mundo afora, sobrevoando o cimo altíssimo das montanhas, esquiando nas neves eternas, correndo sobre o dorso verde do mar, saltando com as ondas, repousando nas cavernas subterrâneas onde a escuridão se esconde durante o dia para descansar e dormir.
Livre e inconstante, solteirão profissional, pensaria o Vento realmente em casar? Contavam-se às dezenas as paixões, os casos, as aventuras, os escândalos, em que ele se vira envolvido. Citam-se raptos, perseguições, maridos em cólera, juras de vinganças. A Manhã balança a cabeça: o Vento não pensa em casar coisa nenhuma, são outras suas intenções, nefandas intenções, como se dizia naquele tempo de atraso e cafonice.
Mesmo assim, vale a pena sonhar. Envolta em tais pensamentos vai a Manhã devaneando, esquecida das horas. Os relógios, todos eles, parados à espera; os galos, sem excepção, roucos de tanto cantar anunciando o Sol e cadê o Sol? Ao canto dos galos os homens acordam, confirmam na montra dis relógios as cinco horas precisas, para constatar em seguida a ausência do Sol. No céu luz fosca da madrugada se confunde com a gaze cinzenta da cauda da noite. Terá chegado o fim do mundo? Um deus-nos-acuda nunca visto.

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